O mercado de reposição de autopeças, conhecido globalmente como aftermarket, sempre carregou a fama de ser um setor prioritariamente “raiz”. Construído na base do relacionamento de balcão, da peça física e da confiança estrita entre o motorista e o seu mecânico, o segmento movimenta bilhões anualmente no Brasil. No entanto, por trás dessa mecânica tradicional, uma revolução silenciosa impulsionada por Inteligência Artificial (IA), Big Data e Computação em Nuvem (Cloud) está redesenhando as regras do jogo.
Para entender como uma gigante do setor gerencia a complexidade de milhões de componentes e conecta uma cadeia fragmentada, o Trend Off recebeu Daniel Destro, CTO da Rede Âncora. Com quase 900 pontos físicos espalhados pelo Brasil e um ecossistema que une a indústria ao consumidor final, a empresa tornou-se um case emblemático de como a tecnologia de ponta pode (e deve) sustentar a escala de negócios tradicionais.
Para o consumidor leigo, a manutenção do carro surge apenas diante de uma necessidade inevitável ou de um barulho estranho no motor. Mas, do ponto de vista logístico e tecnológico, o ciclo de vida de um veículo é um labirinto de variáveis.
Quando um veículo zero-quilômetro é adquirido, ele costuma passar os primeiros dois ou três anos realizando revisões programadas dentro das concessionárias, assegurado pela garantia de fábrica. Após esse período, o veículo entra formalmente no mercado secundário. É exatamente aí que a Rede Âncora atua.
A grande barreira desse ecossistema reside na densidade do portfólio. Engenheiros automotivos projetam veículos com especificações milimétricas que variam não apenas por modelo, mas por ano, lote de fabricação, motorização e até mesmo pela presença ou ausência de sistemas como o freio ABS.
“Um Fusca da década de 80 já tinha cerca de 30 mil componentes em seu projeto. Hoje, um carro moderno supera essa marca com facilidade”
destaca Daniel Destro
Se pensarmos que a Rede Âncora gerencia um catálogo digital hiperqualificado com mais de 2 milhões de produtos, fica evidente que o cérebro humano sozinho já não é capaz de cruzar essas informações sem o suporte de sistemas robustos de dados.
Diferente do que dita o senso comum, o uso de Inteligência Artificial no mercado de autopeças não começou com o boom das ferramentas generativas recentes. Na Rede Âncora, a IA já é uma realidade operacional madura, aplicada desde 2019.
O ponto de partida da companhia foi o processamento de linguagem natural (NLP – Natural Language Processing), utilizado para organizar o caos informacional dos padrões textuais de peças. No Brasil, a regionalização cria cenários onde uma mesmíssima peça recebe o “Nome A” em São Paulo e o “Nome B” no Rio Grande do Sul. O motor de IA foi treinado para ler, interpretar e padronizar essas descrições, gerando um catálogo altamente preciso.
Atualmente, a maturidade desses dados permite que o cliente digite apenas a placa do veículo para que o sistema filtre exatamente quais componentes são compatíveis com aquela aplicação específica. E os próximos passos já batem à porta. A Rede Âncora está testando assistentes virtuais baseados em IA que aproximam o linguajar leigo do diagnóstico mecânico.
“Temos projetos em parceria, inclusive em canais como o WhatsApp, onde o usuário descreve o sintoma, como ‘um barulho de grilo ao dar a partida’ e a IA aponta as hipóteses mais prováveis de falha. Isso funciona como um assistente orientador para o motorista leigo”
explica o CTO
Nenhum algoritmo de Inteligência Artificial entrega valor se a fundação de dados estiver comprometida. O processo de estruturação de Big Data e Machine Learning da Rede Âncora ganhou tração massiva há cerca de três anos, focando no cruzamento de bases internas, externas e de mercado para identificar o potencial de crescimento de cada loja de sua rede.
Para viabilizar essa transformação digital sem travar a operação diária, a parceria com especialistas em infraestrutura tornou-se indispensável. Destro mencionou o papel estratégico da Skyone na modernização do data center da companhia. Ao migrar o legado e os sistemas de ERP para uma plataforma em nuvem robusta, governada e com o dobro da capacidade anterior, a equipe de TI ganhou o recurso mais valioso do mercado atual: tempo.
Com o back-end devidamente limpo e performático, a liderança tecnológica pôde migrar o foco dos gargalos operacionais para a inovação de negócios. Isso permitiu refinar o planejamento, mapear a sazonalidade, prever demandas regionais com base no clima e otimizar o estoque dos distribuidores.
Quando projetamos o futuro do mercado de autopeças e sua tecnologia, o maior desafio não reside nos códigos, mas na mudança cultural e comportamental. O aplicador final, o mecânico da oficina, é o principal influenciador na jornada de compra do consumidor. Hoje, este profissional é profundamente dependente de canais ágeis e diretos, como o WhatsApp. Forçá-lo a sair de seu habitat natural é um erro estratégico; o segredo está em levar a inteligência de negócios até os canais onde ele já atua.
Além disso, a indústria automotiva enfrenta uma tríplice transição até 2040:
A tecnologia, portanto, funcionará como a ponte para que o mercado independente sobreviva à tentativa das grandes montadoras de monopolizarem os ciclos de reparo. A predição de demanda e a hiperpersonalização garantirão que a peça certa esteja no lugar certo, no momento exato em que o cliente precisar.
A grande lição deixada pelo CTO da Rede Âncora é um lembrete vital para qualquer gestor ou entusiasta da inovação: a tecnologia nunca deve ser implementada apenas por ser “bonita” ou moderna. Ela precisa resolver dores reais, gerar eficiência operacional e blindar as margens do negócio.
“A tecnologia é um meio, ela não é o fim por si só. Como técnicos, queremos sempre desenhar o estado da arte do negócio. Mas quando você traz isso para a aplicação prática, os trade-offs precisam ser calculados. Um projeto super tecnológico que não converte e não serve ao negócio não tem valor real”
conclui Daniel Destro
Ao unir infraestrutura em nuvem estável, governança de dados estruturada e a inteligência preditiva da IA, o varejo tradicional de autopeças prova que não há setor imune à inovação, e que o topo do mercado pertence a quem sabe antecipar as necessidades da sua cadeia.
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