Trend dos anos 80: quais os riscos de enviar fotos para IA?

Se você abriu o Instagram, o TikTok ou o WhatsApp nessas últimas semanas, com certeza esbarrou em alguém que resolveu voltar quatro décadas no tempo. Cabelo armado. Ombreira. Jaqueta jeans. Aquela foto com cara de anuário escolar, granulado de filme e cores meio desbotadas, como se tivesse saído direto de uma gaveta empoeirada dos anos 80.
Cibersegurança 7 min de leitura Por: Carlos Alcoba

Se você abriu o Instagram, o TikTok ou o WhatsApp nessas últimas semanas, com certeza esbarrou em alguém que resolveu voltar quatro décadas no tempo. Cabelo armado. Ombreira. Jaqueta jeans. Aquela foto com cara de anuário escolar, granulado de filme e cores meio desbotadas, como se tivesse saído direto de uma gaveta empoeirada dos anos 80.

A brincadeira tomou o feed rápido demais para ser ignorada. Gente como Sabrina Sato, Virginia Fonseca, Fernanda Paes Leme e Ana Maria Braga entrou na onda, a hashtag #trendanos80 já soma milhares de posts, e o próprio Google Trends registrou o termo entre as buscas em alta no Brasil. Basta enviar uma selfie para o ChatGPT ou o Gemini com o prompt certo, e pronto: você nos anos 80, em segundos.

É o tipo de fenômeno que ajuda a entender por que certas trends de IA crescem tão rápido. A experiência é simples, o resultado é bonito de olhar, e existe um empurrão social gigante: todo mundo, literalmente todo mundo, está fazendo.

Só que tem uma pergunta que quase nunca aparece ao lado do botão “gerar”.

O que acontece com a sua foto depois que você aperta enviar?

A gente entregou o rosto antes de pensar no que estava entregando

Não tem nada de errado em participar da brincadeira. Usar uma ferramenta de IA para reimaginar uma foto não significa, por si só, abrir mão da sua privacidade.

O ponto está em outro lugar: a gente pensa muito no resultado, o cabelo, a roupa, o filtro perfeito, e quase nada no caminho que a imagem percorre até chegar lá. Ela fica armazenada? Por quanto tempo? Pode ser usada para treinar outros modelos? É compartilhada com terceiros? Dá pra pedir a exclusão depois?

São perguntas bem menos divertidas do que escolher entre jaqueta jeans e blazer colorido. Mas são exatamente elas que deveriam entrar na decisão, principalmente porque especialistas já começaram a se manifestar sobre essa trend específica, e o alerta não é genérico.

Seu rosto não é uma senha que dá pra trocar

Segundo o advogado especializado ouvido pelo SBT News sobre a trend, o risco de vazamento talvez seja baixo, mas ele existe, e o problema não se limita às ferramentas de IA: redes sociais e outros serviços digitais também concentram grande volume de dados pessoais.

Já Eliney Sabino, coordenador de cursos de tecnologia da UnifacenS e especialista em IA, reforça um ponto simples e incômodo: quem participa da trend não está entregando “só uma foto”, está entregando dados que podem ser cruzados com nome, perfil de rede social, local de trabalho e rotina para compor um retrato bem mais completo de quem você é.

E aqui mora a diferença que separa um rosto de uma senha: senha comprometida, você troca. Cartão roubado, você cancela. Seu rosto, não. Não existe “gerar uma nova versão” da sua identidade física caso ela seja usada de forma indevida.

Isso não quer dizer que toda selfie enviada a uma IA vá virar um identificador biométrico usado contra você. Quer dizer que, antes de entregar um dado potencialmente sensível, vale a pena entender as regras do jogo daquele serviço específico.

A diferença parece pequena. Na prática, é enorme.

O número que ninguém repara: quase 1 em cada 3 pessoas nem lê os termos

Um dado recente, levantado a partir de estudo sobre comportamento digital na América Latina, ajuda a explicar por que trends como essa preocupam tanto especialistas em segurança: cerca de 27% a 30% dos usuários da região admitem não revisar as permissões que um aplicativo pede antes de instalá-lo ou usá-lo, seja porque o texto é longo demais, seja porque simplesmente não prestam atenção.

Em outras palavras: a maioria de nós clica em “aceitar” no piloto automático. E quando uma trend está bombando, esse piloto automático fica ainda mais ligado. Você vê um amigo fazendo, abre a ferramenta, sobe a foto, escolhe o estilo, publica. Em menos de um minuto está tudo resolvido. A parte invisível, retenção de dados, compartilhamento, uso para treinamento, fica pra depois. Quando fica.

E se a sua foto tiver mais informação do que você percebeu?

Existe ainda um risco bem mais banal, e por isso mesmo fácil de esquecer: a foto que você manda pode carregar muito mais do que o seu rosto.

Um crachá pendurado no pescoço. Uma tela de computador ao fundo, com uma planilha aberta. Um documento em cima da mesa. O interior da sua casa. Uma placa de carro. Uma criança que não deu (e não podia dar) consentimento para aparecer ali.

Uma selfie aparentemente inocente pode revelar muito mais contexto do que você pretendia compartilhar, e especialistas ouvidos por diferentes veículos batem na mesma tecla: antes de enviar, vale avaliar o que aquela imagem mostra ao redor do seu rosto, não só o rosto em si.

De brincadeira de feed a matéria-prima de golpe

Aqui entra a camada que menos aparece nas manchetes sobre a trend: quanto mais fotos nítidas de rosto circulam publicamente, mais matéria-prima existe para deepfakes e golpes de engenharia social, inclusive corporativos.

Análises voltadas para o público executivo já apontam esse recorte: a trend representa um risco de segurança que diretores e times de TI deveriam observar, porque fotos claras e de alta qualidade. Exatamente o tipo que a trend pede para funcionar bem, são também o tipo de material que alimenta tentativas de suplantação de identidade.

Uma foto sozinha não cria um golpe sofisticado. Mas, combinada a nome, cargo, empresa, voz e rotina (informações já espalhadas por aí), ela pode virar peça de um quebra-cabeça bem mais convincente do que qualquer um gostaria de admitir.

Leia também: Já IA acreditando: por que é tão difícil identificar conteúdo de IA

Então, parar de usar essas ferramentas?

Não. Seria exagero tratar qualquer app de geração de imagem como ameaça a ser evitada a qualquer custo.

A questão é ganhar um pouco mais de consciência antes de clicar em “enviar”. Na prática, isso significa:

  • Dar uma olhada (rápida que seja) na política de privacidade da ferramenta antes de subir a foto;
  • Verificar se dá para recusar o uso da imagem em treinamento de modelo, ou pedir a exclusão depois;
  • Evitar fotos com documentos, crachás, telas de trabalho ou outras pessoas que não pediram para estar ali;
  • Para empresas: transformar isso em política clara, que tipo de imagem e informação os colaboradores podem (ou não) subir em ferramentas externas de IA, porque não adianta investir pesado em segurança de sistemas e deixar essa porta lateral aberta.

Você também pode se interessar: Como evitar vazamento de dados em IA: estratégias de segurança, LGPD e governança

A trend passa. A imagem continua sendo sua

Essa é talvez a parte mais interessante de toda a história. Daqui a algumas semanas, ninguém vai mais lembrar da jaqueta jeans gerada por IA, outra estética vai estar dominando o feed.

Mas as fotos enviadas para participar da brincadeira não desaparecem no mesmo ritmo que a trend.

A ideia aqui não é acabar com a diversão nem demonizar a tecnologia. É lembrar que, por trás do botão “gerar”, existe um dado que continua sendo seu muito depois de a trend sair de moda.

Curtir a nostalgia dos anos 80? Sempre. Mas talvez a forma mais atual de se proteger na era da IA seja simples assim: antes de qualquer filtro, se perguntar “o que exatamente eu estou entregando em troca?”

Carlos Alcoba
Escrito por Carlos Alcoba

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