O mercado de varejo está vivenciando uma de suas transformações mais profundas desde a consolidação do e-commerce. Se no passado a grande obsessão dos profissionais de marketing era simplesmente marcar presença nos canais digitais, o desafio contemporâneo gira em torno de uma disciplina que une tecnologia, dados primários (first-party data) e canais de venda: o Retail Media.
Para desmistificar esse cenário e entender como grandes marcas estruturam suas estratégias de dados para impulsionar resultados de negócios, o podcast Trend Off — focado em Marketing, Tecnologia e Tendência, recebeu Mônica Fukumoto, Head de Insights e Dados da Impulso (empresa que integra o ecossistema da RD Saúde, responsável por marcas líderes como Raia e Drogasil).
Neste artigo completo, vamos analisar os principais insights discutidos no episódio, explorando os desafios de estruturação de dados, as nuances do comportamento do shopper omnicanal e as metodologias de atribuição além do tradicional last click.
Vivemos em um período marcado pelo excesso de informações. Como destacado na discussão do podcast, o grande desafio das lideranças de marketing e tecnologia não é mais a escassez de dados, mas sim a capacidade de filtrar o “ruído” para extrair o “som”, ou seja, insights que gerem valor real e guiem a tomada de decisão.
A evolução tecnológica dos últimos 14 anos transformou radicalmente não apenas a infraestrutura técnica, mas também as habilidades exigidas dos profissionais da área. Mônica Fukumoto enfatiza que, embora saber escolher a metodologia estatística correta continue relevante, o diferencial competitivo está na capacidade analítica de traduzir objetivos de negócios em soluções técnicas estruturadas:
“Acho que cada vez mais [relevante] é que tipo de pergunta fazer. Na minha visão, é muito como eu conecto o que é o objetivo de negócio e como eu traduzo isso para a solução técnica.”
Mônica Fukumoto, Head de Insights e Dados da Impulso
Um erro comum em pesquisas de mercado e na coleta de dados comerciais é a inclusão excessiva de perguntas na busca pelo “dado perfeito”. A experiência prática mostra que formular questionários longos frequentemente gera o efeito oposto: as taxas de resposta despencam e a qualidade da base de dados diminui. O verdadeiro poder analítico reside em coletar o essencial e saber cruzar esses dados com o comportamento espontâneo do consumidor.
O varejo farmacêutico no Brasil apresenta características únicas de capilaridade e expansão constante. No caso do Grupo RD Saúde, o processo de digitalização estruturou um cenário onde as vendas online já representam cerca de 30% do total faturado pela companhia.
Esse número expressivo é resultado de um trabalho consistente focado em eliminar a fricção na jornada de compra do consumidor:
O grande diferencial que posiciona o Retail Media como a principal tendência de marketing da atualidade é a sua capacidade nativa de fechar o ciclo de atribuição: ligar o impacto publicitário diretamente à conversão final.
No marketing tradicional, indústrias e agências frequentemente enfrentavam dificuldades para correlacionar investimentos em branding com o aumento real de vendas nas gôndolas (sell-out). O Retail Media resolve essa dor utilizando dados primários anonimizados (first-party data) em conformidade com as regras de privacidade.
As marcas parceiras podem trabalhar com diferentes formatos de mídia dentro desse ecossistema:
Veiculação de anúncios em banners, buscas patrocinadas e vitrines personalizadas dentro do próprio website ou aplicativo oficial do varejista (que, no caso da RD, concentra a maior participação de acessos mobile).
Ativação de audiências qualificadas baseadas no histórico de compras do varejista para direcionar anúncios de alta precisão em plataformas externas como Google Shopping, Meta (Instagram/Facebook), TikTok ou mídia programática.
Exibição de comunicações em telas digitais estrategicamente posicionadas no ambiente físico das farmácias. Como o varejo físico ainda responde pela maior fatia do volume total de compras no mercado brasileiro, impactar o consumidor com conteúdos dinâmicos no exato momento em que ele está diante da gôndola potencializa significativamente as taxas de conversão.
Um dos principais debates levantados no podcast aborda a forte dependência do mercado de marketing digital em relação ao modelo de atribuição por last click (último clique). Ao conceder todo o mérito da conversão ao ponto de contato final, a estratégia ignora a construção de marca e os canais intermediários que despertaram o interesse inicial do consumidor.
A gente basicamente dá 100% do crédito — aproveitando o clima de Copa do Mundo — para o atacante que fez o gol e desconsidero toda a estruturação do time, o papel anterior, do técnico… Acho que o olhar quando a gente acaba olhando só para o último ponto de contato é até meio injusto, né? Porque tem todo um processo de construção.
Mônica Fukumoto, Head de Insights e Dados da Impulso
Para superar essa visão limitada, marcas maduras começam a aplicar modelos de atribuição multi-touch ou análises incrementais. Isso envolve comparar o desempenho de vendas de grupos expostos à mídia de Retail Media contra grupos de controle sem exposição, descontando sazonalidades e outros fatores externos.
Dessa forma, comprova-se o ROI e entende-se a janela de recompra real de cada categoria, seja em campanhas de performance com foco imediato em sell-out ou em ações de sustentação voltadas a segurar quedas de participação de mercado (market share) diante de movimentos agressivos da concorrência.
A automação, a inteligência artificial e os algoritmos são fundamentais para garantir escala, agilidade e profundidade no processamento de volumes massivos de dados corporativos. No entanto, nenhuma dessas ferramentas substitui o olhar analítico e estratégico sobre o comportamento humano.
O sucesso no Retail Media não está na busca obsessiva por uma métrica isolada ou pelo dado perfeito, mas sim na inteligência de conectar a jornada integrada do consumidor com os reais objetivos de negócios das marcas.
Este artigo abordou os pilares técnicos e analíticos da discussão, mas você pode conferir todos os bastidores, exemplos práticos e histórias compartilhadas neste episódio imperdível.
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