O mercado de transmissão esportiva vive um de seus momentos mais dinâmicos e disruptivos. Se há algumas décadas o torcedor dependia exclusivamente das ondas do rádio AM/FM ou das transmissões estáticas da TV aberta, hoje o cenário é de pulverização de canais, proliferação de plataformas digitais e interatividade em tempo real.
Mas no meio dessa enxurrada de novas tecnologias, uma dúvida frequentemente paira entre executivos e entusiastas da inovação: os veículos tradicionais de comunicação estão fadados à extinção?
Para responder a essa pergunta e analisar as profundas transformações na cobertura do futebol, o podcast Trend Off, focado em marketing, tecnologia e tendências, reuniu uma das maiores lendas da locução esportiva brasileira: o narrador Oscar Ulisses, e Felipe Wassernman, Diretor de Marketing e Growth na Skyone.
Neste artigo, exploramos os principais insights desse debate, destrinchando o papel do som na era da inteligência de dados, a reinvenção do rádio e as novas direções do streaming esportivo.
Uma das maiores lições extraídas do debate no Trend Off desmistifica a ideia de que a modernização tecnológica aniquilou os formatos clássicos. Quando questionado sobre ser “do tempo do rádio”, Oscar Ulisses foi categórico ao reposicionar o veículo no presente:
“O tempo do rádio é hoje. Hoje tá muito em alta, nós temos um monte de podcast aqui. Isso é rádio, né? Muita informação através do som.”
Oscar Ulisses
De uma perspectiva analítica de comportamento de consumo, o áudio se consolidou como o formato definitivo para a rotina acelerada da sociedade moderna. Diferente do vídeo, que exige atenção visual exclusiva, o som atua como um agregador de valor às atividades cotidianas.
O podcast, portanto, nada mais é do que a evolução natural do rádio, utilizando novos caminhos de distribuição sob demanda para entregar informação e entretenimento.
Se por um lado a tecnologia democratizou o acesso à criação de conteúdo, por outro ela fragmentou o mercado de direitos de transmissão esportiva.
Felipe pontuou uma dor latente do torcedor moderno: a perda da centralização das transmissões. No modelo tradicional, o consumidor tinha a certeza absoluta de encontrar o jogo do seu time em canais abertos específicos ou em pacotes fechados de Pay-Per-View tradicionais.
Atualmente, o cenário migrou para plataformas variadas como YouTube, canais de streaming independentes (Casas de TV) e aplicativos de grandes veículos tradicionais reformulados para o ambiente digital. Para exemplificar esse fenômeno de ocupação de espaços, Oscar Ulisses propõe uma excelente metáfora:
“Eu acho que é assim mais ou menos como a água que vai achando os buraquinhos. Vão surgindo os canais de comunicação e vão usando o espaço permitido ali. Então é uma tendência à pulverização mesmo. É cada vez maior.”
Oscar Ulisses
Embora essa pulverização aumente a concorrência e force o surgimento de novos formatos de entretenimento (como ligas alternativas e dinâmicas geracionais voltadas para a euforia e engajamento imediato), ela adiciona fricção à jornada do usuário, que muitas vezes precisa recorrer a mecanismos de busca apenas para descobrir onde seu time jogará no dia.
Apesar de todas as inovações em infraestrutura digital e inteligência artificial aplicada ao esporte, a essência do engajamento no futebol continua sendo uma só: a paixão e a emoção.
O rádio e o formato de áudio possuem uma característica quase mística de construir mundos na mente de quem ouve. O locutor muitas vezes opera em um ambiente solitário de estúdio, mas comunica-se com milhares de pessoas simultaneamente, criando personagens e gerando uma empatia invisível, mas profundamente real.
Ao relembrar grandes momentos de sua carreira, que inclui coberturas históricas de Copas do Mundo como as da Itália (1990) e França (1998), Oscar Ulisses enfatizou o impacto duradouro de transformar lances de campo em narrativas memoráveis, citando como exemplo o gol histórico do jogador Alex pelo Palmeiras contra o São Paulo. O sucesso desse processo reside na capacidade de decodificar o sentimento do ambiente:
“O rádio vende muita emoção. O lance, o jeito que se fala, quando a gente consegue captar aquilo que tá no estádio, aquela emoção, e consegue transformar isso em palavras, na comunicação.” — Oscar Ulisses
Essa habilidade de construir conexões emocionais explica por que o futebol resiste a tantos desafios operacionais. Mesmo quando o consumidor enfrenta experiências físicas ruins nos estádios ou quando a qualidade técnica do espetáculo cai, a fidelidade à marca do time e à narrativa do jogo prevalece.
A evolução tecnológica e o amadurecimento do mercado corporativo do futebol também transformaram a relação dos torcedores com as seleções nacionais. Oscar Ulisses e Felipe analisaram como a globalização do esporte e a exportação precoce de talentos criaram um distanciamento físico e emocional entre o público brasileiro e os atletas convocados.
A consolidação de ligas internacionais robustas fez com que atuar no exterior passasse a ser quase uma condição obrigatória de peso para a validação de um atleta no cenário da Seleção, alterando os critérios tradicionais de avaliação baseados estritamente no momento técnico.
Gerenciar esse ecossistema complexo exige um nível de pragmatismo técnico e governança de elenco, desafios que técnicos de renome internacional tentam estruturar em campeonatos de tiro curto, onde a estabilidade emocional e o encaixe tático imediato superam o histórico de marcas passadas.
As transformações na transmissão esportiva nos mostram que a inovação tecnológica não deve ser vista como uma força destrutiva para os meios tradicionais, mas como uma alavanca de expansão. O rádio não morreu; ele multiplicou-se em podcasts, canais de streaming e transmissões em tempo real por vídeo.
O que muda são os pontos de contato e as plataformas de consumo. A essência da comunicação, sustentada pelo poder de uma boa história, pela transmissão fiel da emoção e pelo respeito à experiência do usuário, continua sendo o verdadeiro diferencial competitivo de qualquer canal de mídia no século XXI.
Esta análise detalhada é apenas uma fração de tudo o que foi discutido neste episódio imperdível do Trend Off. Se você quer ouvir histórias inéditas de bastidores das Copas do Mundo, reflexões profundas sobre a evolução do marketing esportivo e a dinâmica das grandes transmissões diretamente da voz de Oscar Ulisses, clique no link abaixo.
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